segunda-feira, 5 de março de 2012

A história insólita da tia Amparo.


Após este acontecimento, insólito por sinal, fiz uma pesquisa aprofundada sobre a causa que levara a tia amparo acabar o seu dia nas urgências de um hospital.
Pouco depois de o soutien ter sido introduzido na sociedade nova-iorquina, nos princípios do século, a sua inventora, Mary Phelps Jacob fazia as seguintes declarações: “Tenho em consideração que o corpo é o nosso único anúncio e que nós, as mulheres, não podemos impor-nos aos homens por meio de outro argumento. Tudo aquilo que fizermos para nos embelezarmos significa, simplesmente, investirmos em nós próprias” Algum atrevido que estava por perto e que escutou tais declarações, replicou: “Pois andem as mulheres despidas e conseguirão a máxima rendibilidade”, ao que a sagaz apostola do soutien respondeu: “A nudez é monótona, pelo que, por vezes, há que ajudar a natureza, que costuma cometer erros imperdoáveis com os nossos corpos”. Tinha razão Mary Phelps.
Desde a antiguidade, a mulher submetera-se a verdadeiras torturas para ocultar os estragos que o tempo podia fazer no seu próprio físico.
A mulher cretense, há quase 4000 anos, inventou o espartilho e uma espécie de soutien. Mas tratava-se de remédios ocasionais, com os quais não se podia manter o homem enganado durante muito tempo. Naquelas civilizações do mundo mediterrânico antigo, nas procissões de virgens e donzelas, apareciam umas mulheres com soutiens e outras com os seios descobertos, não havendo obviamente necessidade de perguntar ás que os cobriam, porque o faziam, pois o volume era denunciador.
Na Roma clássica conheceu-se o Strophium, que era uma faixa ou banda enrolada em torno do peito. Existem representações gráficas de atletas femininas cujo vestuário se reduzia a essa peça e a uma reduzida tanga. O conjunto formava um biquíni. Assim vestidas, as mulheres saltavam, subiam muros, trepavam pelas cordas e faziam piruetas se fosse preciso, chegando mesmo a lutar, sem correrem o risco de ficarem de “maminhas ao léu”.
Mas a idade média esqueceu aquela roupa intima: o brial e a camisola aprisionavam em demasia o peito, não permitindo evidenciar o busto das senhoras. Só às donzelas, como sinal de virgindade, se deixava marcar o contorno dos seios, o que não deveria ser nada fácil de conseguir.
Até meados do século XVIII, uma faixa de tela sustentava o peito, cruzando á frente, apertando atrás e atando-se depois ao pescoço.
Era uma armação aquilo que era preciso preparar por baixo das saias de musselina de cintura alta, que exigia um grande sacrifício, já que restringia e limitava muito os movimentos; aliado ao espartilho, fazia da mulher uma verdadeira mártir da estética, e tudo se sofria com agrado.
Em 1902, chegou a ser publicado na imprensa matutina inglesa um anúncio surpreendente: “ Melhoradores do busto cor de carne, muito confortáveis, a sete xelins. Não sofra mais”. A peça em questão era já o soutien moderno, herdeiro de um artefacto semelhante concebido em 1889, por Herminia Cadolle, que não conseguiu conquistar o mercado da época. Todavia a verdadeira defensora e paladina do soutien foi sem dúvida a nova-iorquina, Mary Phelps, que em 1914, conseguiu uma patente, na qual se proclama criadora do feliz invento. Mas porque raio, Mary se lembrou de desenvolver um soutien?
Ocorrera-lhe tal ideia, ao observar o entramado de barbas de baleia, cordões e faixas rosa, á maneira de uma armadura que as mulheres tinham de suportar. Rebelde para época, rebelou-se contra aquele estado de coisas com o grito: “Nunca me submeterei a essa humilhação. Eles que sofram (os homens, talvez). Abaixo o espartilho”. Com a ajuda da sua criada desenhou o seu dispositivo, valendo-se de dois lenços de bolso, uma faixa e um pouco de fio, e assim nasceu o 1º protótipo do soutien propriamente dito. A sua criada, que era francesa, exclamou: Voilá l`avenir…”eis o futuro”, e não se enganou.
Já na idade madura da sua vida, Mary Phelps, dizia sem amargura: “Não tem importância, pois fui eu quem prestou o maior serviço ás pessoas do meu sexo, e também não creio que isso tenha importância para as mulheres”.
Mas o mais paradoxo de tudo isto é que, dada a reduzida magnitude dos seus próprios seios, Mary não tirou directamente partido do seu invento. Naquela altura ainda não existiam as mamoplastias de aumento, para grande infelicidade de Mary, certamente.
Após esta breve resenha histórica já posso revelar a história da tia Amparo. A tia Amparo, era uma senhora muito querida, já com 93 anos de idade, e que estava particularmente afectada pela morte recente do seu marido.
E como é muito frequente nestas idades, ela decidiu suicidar-se.
Pensando que o melhor para ela seria acabar rápido com o assunto, foi buscar a velha pistola do exército que pertencera ao seu marido, e tomou a decisão de disparar um tiro certeiro no coração, já que estava destroçada pela dor da sua perda.
Não querendo falhar o tiro num órgão tão vital e tornar-se num vegetal e num fardo para os seus familiares, telefonou ao seu médico assistente para lhe perguntar onde ficava exactamente o seu coração.
O médico respondeu-lhe:
- “Dona Amparo, mas que pergunta?! … O seu coração está exactamente debaixo do seu seio esquerdo”.
E foi assim que a querida tia Amparo acabou nas urgências de ortopedia com um joelho totalmente desfeito. Com isto posso concluir, que o motivo deste infortúnio, foi porque a tia Amparo não estava naquele preciso momento de grande concentração e acuidade visual para proceder ao disparo, utilizando o seu soutien, que muitos joelhos já salvaram a muitas senhoras, desde a sua invenção por Mary Phelps.

Luís Rosário in Crónicas insólitas

quinta-feira, 1 de março de 2012

Prenda de natal envenenada!

Do mesmo modo que existem mitos na medicina, também existem ideias falsas sobre a religião, e dou alguns exemplos, tais como:

•O cristianismo é inimigo do prazer.
•O corão obriga as mulheres a usar véu.
•O corão proíbe as imagens.
•Os muçulmanos são árabes.
•A religião é o ópio do povo.
•O tantrismo é uma forma de budismo.
•O ZEN é japonês.
•Jesus nasceu no dia de natal.
•Etc…etc…etc…

As ideias falsas são as mais partilhadas e as mais tenazes também, e em matéria de religião, elas são fonte de preconceitos, mas também frequentemente, de intolerância.
Dos exemplos que mencionei entre muitos outros que podia citar, vou apenas partilhar a minha opinião sobre dois, que desde muito cedo, me despertou grande curiosidade. Vou aflorar um por motivos puramente religiosos e étnicos e aprofundar um pouco mais, outro, por motivos que se prendem com as crenças da maioria das pessoas e com a saúde, (minha área de interesse) como não podia deixar de ser.
O primeiro tema, prende-se com a ideia de que os muçulmanos são árabes, pois essa teoria não passa de um erro geográfico, e de uma verdade meramente teológica.
É um erro geográfico porque a maioria dos muçulmanos existentes no mundo não são árabes do ponto de vista étnico, e é uma verdade teológica porque todos eles são espiritualmente árabes, assim como todos os cristãos, segundo a expressão da Igreja, são “espiritualmente semitas”.
Em suma, um católico é romano mesmo que não habite a cidade “eterna”, e um muçulmano é árabe mesmo que seja chinês ou persa!
O segundo tema que irei abordar sempre me despertou muito interesse, e deve-se ao facto de julgarmos que Jesus nasceu no dia de natal.
Com toda a sinceridade, ninguém sabe precisamente onde e quando Jesus nasceu, contudo é considerado o novo Messias, nascido na “casa do pão” ou Belém.
Vejamos o seguinte: José e Maria residiam na aldeia de Nazaré, na Galileia, a oito dias de marcha a pé de Belém, logo é muito pouco provável em termos biológicos que uma mulher á beira de “dar á luz”, tenha conseguido fazer tal viagem em condições muito precárias e severas, mesmo para responder a uma ordem de recenseamento romano mencionado por S. Lucas, e mal confirmada pela história.
Pode ser que Jesus tenha nascido em Nazaré, mas a verdade é que não existe nenhuma prova concreta quanto ao seu local de nascimento. Assim sendo, como o nascimento de Jesus, ao contrário da sua morte (exactamente antes da Páscoa judaica), não está ligado a nenhuma festa do calendário, e pode ter lugar em qualquer época, talvez por este aspecto histórico, podemos dizer que o natal é quando um Homem quiser!
Mas, continuando o meu raciocínio, o natal seria o dia do nascimento (do latim natalis dies), também designado como o dia do “novo sol” (do gaulês noio hel). Em inglês, é a “missa de cristo” (Christmas), e em alemão, as “noites sagradas” (weihnachten). Estas hesitações etimológicas mostram que o natal foi entendido como um acontecimento teológico (nascimento de um Messias) e como um fenómeno astronómico (o regresso do sol). Esta 2ª explicação é, historicamente a 1ª explicação, porque o natal começou por ser uma festa do solstício de inverno (a diferença de 3 ou 4 dias parece não ter importância) em muitas religiões “pagãs” da Europa pré-cristã, nomeadamente nas religiões nórdicas ou de montanha, onde “cristo supremo” designação teológica, (o sol) designação astronómica, se esconde nos dias maus e faz recear uma noite eterna. Festejar o início de melhores dias, era então, o meio de exorcizar o medo de um frio perpétuo, de uma morte previsível, “se o sol não regenerasse”.
Em Roma, esta festa do “sol invencível” (sol invictus) foi oficializada pelo imperador Aurélio (270-275 d.C.), que se achava um rei-sol, ou um astro da cor do ouro (aurus).
Também foi associada ao culto Mitra, o Deus Iraniano, que simboliza as forças vitais como o sol e o touro.
Ora, a bíblia, para os mais curiosos que já tiveram a oportunidade de a ler, apresenta também o Messias como um “sol de justiça” e como um “astro nascente”.
Ao manter as datas das cerimónias pagãs para comemorar um importante acontecimento astronómico, a igreja tirou partido disso, e cristianizou uma velha festa da natureza, e fez com que o natal fosse celebrado a 25 de Dezembro a partir do ano 336 aproximadamente, no fim do reinado de Constantino, o 1º imperador cristão, cujo sol passou a representar o nascimento de cristo.
O natal, tornou-se também um nome de baptismo, mesmo que não houvesse nenhum São Natal ou um São Pascal, o importante mesmo, era datar precisamente o nascimento de Jesus para o tornar num acontecimento histórico e não numa lenda mitológica.
Jesus nasceu no dia do seu nascimento (é evidente) a que chamamos Natal (que é arbitrário). Em pleno inverno, a natividade aquece os corações mais gélidos e transmite vida sagrada a uma natureza morta pela severidade do inverno, e á medida que os missionários cristãos evangelizaram as zonas tropicais, o natal perdeu o seu carácter de festa do solstício de inverno, e como exemplo disso mesmo, no Equador, não existe o “sol invencível” ou vencível, uma vez que o “astro supremo”, o sol, entenda-se, nunca se põe.
Já no hemisfério sul, o natal é mesmo a festa do verão, o equivalente ao S. João nas nossas latitudes, e é o dia mais longo e o mais quente, o inverso absoluto do nosso 24 de Dezembro que bate normalmente recordes de frio com muita neve a pintar tudo de branco.
Como tal, nos dias de hoje, é possível ir para os trópicos celebrar o nascimento de Jesus para uns (os ricos), e o renascimento do sol para outros (os mais ricos), a fim de festejar o natal sob os coqueiros das praias, queimando a pele aos raios do sol que não é invencível nem vencível, mas que dá um contributo enorme para o aumento crescente do cancro da pele (melanoma); talvez como uma prenda de natal envenenada.

"O médico que só sabe medicina nem medicina sabe".
Prof. Abel Salazar

Luís Rosário in Crónicas insólitas