Do mesmo modo que existem mitos na medicina, também existem ideias falsas sobre a religião, e dou alguns exemplos, tais como:
•O cristianismo é inimigo do prazer.
•O corão obriga as mulheres a usar véu.
•O corão proíbe as imagens.
•Os muçulmanos são árabes.
•A religião é o ópio do povo.
•O tantrismo é uma forma de budismo.
•O ZEN é japonês.
•Jesus nasceu no dia de natal.
•Etc…etc…etc…
As ideias falsas são as mais partilhadas e as mais tenazes também, e em matéria de religião, elas são fonte de preconceitos, mas também frequentemente, de intolerância.
Dos exemplos que mencionei entre muitos outros que podia citar, vou apenas partilhar a minha opinião sobre dois, que desde muito cedo, me despertou grande curiosidade. Vou aflorar um por motivos puramente religiosos e étnicos e aprofundar um pouco mais, outro, por motivos que se prendem com as crenças da maioria das pessoas e com a saúde, (minha área de interesse) como não podia deixar de ser.
O primeiro tema, prende-se com a ideia de que os muçulmanos são árabes, pois essa teoria não passa de um erro geográfico, e de uma verdade meramente teológica.
É um erro geográfico porque a maioria dos muçulmanos existentes no mundo não são árabes do ponto de vista étnico, e é uma verdade teológica porque todos eles são espiritualmente árabes, assim como todos os cristãos, segundo a expressão da Igreja, são “espiritualmente semitas”.
Em suma, um católico é romano mesmo que não habite a cidade “eterna”, e um muçulmano é árabe mesmo que seja chinês ou persa!
O segundo tema que irei abordar sempre me despertou muito interesse, e deve-se ao facto de julgarmos que Jesus nasceu no dia de natal.
Com toda a sinceridade, ninguém sabe precisamente onde e quando Jesus nasceu, contudo é considerado o novo Messias, nascido na “casa do pão” ou Belém.
Vejamos o seguinte: José e Maria residiam na aldeia de Nazaré, na Galileia, a oito dias de marcha a pé de Belém, logo é muito pouco provável em termos biológicos que uma mulher á beira de “dar á luz”, tenha conseguido fazer tal viagem em condições muito precárias e severas, mesmo para responder a uma ordem de recenseamento romano mencionado por S. Lucas, e mal confirmada pela história.
Pode ser que Jesus tenha nascido em Nazaré, mas a verdade é que não existe nenhuma prova concreta quanto ao seu local de nascimento. Assim sendo, como o nascimento de Jesus, ao contrário da sua morte (exactamente antes da Páscoa judaica), não está ligado a nenhuma festa do calendário, e pode ter lugar em qualquer época, talvez por este aspecto histórico, podemos dizer que o natal é quando um Homem quiser!
Mas, continuando o meu raciocínio, o natal seria o dia do nascimento (do latim natalis dies), também designado como o dia do “novo sol” (do gaulês noio hel). Em inglês, é a “missa de cristo” (Christmas), e em alemão, as “noites sagradas” (weihnachten). Estas hesitações etimológicas mostram que o natal foi entendido como um acontecimento teológico (nascimento de um Messias) e como um fenómeno astronómico (o regresso do sol). Esta 2ª explicação é, historicamente a 1ª explicação, porque o natal começou por ser uma festa do solstício de inverno (a diferença de 3 ou 4 dias parece não ter importância) em muitas religiões “pagãs” da Europa pré-cristã, nomeadamente nas religiões nórdicas ou de montanha, onde “cristo supremo” designação teológica, (o sol) designação astronómica, se esconde nos dias maus e faz recear uma noite eterna. Festejar o início de melhores dias, era então, o meio de exorcizar o medo de um frio perpétuo, de uma morte previsível, “se o sol não regenerasse”.
Em Roma, esta festa do “sol invencível” (sol invictus) foi oficializada pelo imperador Aurélio (270-275 d.C.), que se achava um rei-sol, ou um astro da cor do ouro (aurus).
Também foi associada ao culto Mitra, o Deus Iraniano, que simboliza as forças vitais como o sol e o touro.
Ora, a bíblia, para os mais curiosos que já tiveram a oportunidade de a ler, apresenta também o Messias como um “sol de justiça” e como um “astro nascente”.
Ao manter as datas das cerimónias pagãs para comemorar um importante acontecimento astronómico, a igreja tirou partido disso, e cristianizou uma velha festa da natureza, e fez com que o natal fosse celebrado a 25 de Dezembro a partir do ano 336 aproximadamente, no fim do reinado de Constantino, o 1º imperador cristão, cujo sol passou a representar o nascimento de cristo.
O natal, tornou-se também um nome de baptismo, mesmo que não houvesse nenhum São Natal ou um São Pascal, o importante mesmo, era datar precisamente o nascimento de Jesus para o tornar num acontecimento histórico e não numa lenda mitológica.
Jesus nasceu no dia do seu nascimento (é evidente) a que chamamos Natal (que é arbitrário). Em pleno inverno, a natividade aquece os corações mais gélidos e transmite vida sagrada a uma natureza morta pela severidade do inverno, e á medida que os missionários cristãos evangelizaram as zonas tropicais, o natal perdeu o seu carácter de festa do solstício de inverno, e como exemplo disso mesmo, no Equador, não existe o “sol invencível” ou vencível, uma vez que o “astro supremo”, o sol, entenda-se, nunca se põe.
Já no hemisfério sul, o natal é mesmo a festa do verão, o equivalente ao S. João nas nossas latitudes, e é o dia mais longo e o mais quente, o inverso absoluto do nosso 24 de Dezembro que bate normalmente recordes de frio com muita neve a pintar tudo de branco.
Como tal, nos dias de hoje, é possível ir para os trópicos celebrar o nascimento de Jesus para uns (os ricos), e o renascimento do sol para outros (os mais ricos), a fim de festejar o natal sob os coqueiros das praias, queimando a pele aos raios do sol que não é invencível nem vencível, mas que dá um contributo enorme para o aumento crescente do cancro da pele (melanoma); talvez como uma prenda de natal envenenada.
"O médico que só sabe medicina nem medicina sabe".
Prof. Abel Salazar
Luís Rosário in Crónicas insólitas
Parabéns Luís. Boa dissertação. Excelente exposição e desenvolvimento racional. Gostei muito ! - Forte Abraço - (recomendo uso de protector "ecran total" sempre que possivel.... para minimizar o mal que o excesso de sol nos faz- desculpa esta minha brincadeira em assunto tão sério! PARABENS !)
ResponderEliminarGostei! :-) Parabéns! Um beijinho.
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